As mudanças na geopolítica global e seus efeitos sobre o agronegócio brasileiro foram o ponto de partida da 4ª edição do Encontro Nacional dos Produtores de Sementes de Soja (ENSSOJA), aberto na noite desta quarta-feira, 6 de maio, em Foz do Iguaçu (PR). Promovido pela Associação Brasileira dos Produtores de Semente de Soja (ABRASS), o encontro reúne produtores, empresas e lideranças do setor sementeiro para dois dias de debate sobre os cenários que vão pautar a atividade nos próximos anos.

Na palestra "Ruptura geopolítica global e as consequências para o agronegócio brasileiro", Oliver Stuenkel, professor da Fundação Getulio Vargas (FGV), pesquisador sênior do Carnegie Endowment for International Peace, em Washington, DC, e pesquisador do Belfer Center na Harvard Kennedy School, situou o crescimento do agronegócio brasileiro em um contexto histórico específico. Entre 1990 e 2015, o mundo operou sob estabilidade geopolítica atípica, marcada por unipolaridade americana, abertura comercial e previsibilidade nas relações entre países. Foi nesse ambiente que o agro brasileiro se expandiu e consolidou posição de liderança global.

A partir de 2015, esse quadro começou a mudar. O mundo transitou para uma configuração multipolar, com crescimento de conflitos, guerras comerciais e intensificação de sanções. As cadeias de suprimento agrícola tornaram-se mais vulneráveis, e a previsibilidade deixou de ser uma premissa.

"Conflitos são o novo normal em um mundo multipolar. É necessário ter monitoramento constante do cenário político para saber de que forma um futuro conflito pode impactar seu negócio. Ao invés de reagir, as empresas precisam se preparar, serem proativas", afirmou Oliver.

Apesar dos riscos, Stuenkel apontou que o Brasil pode ocupar posição estratégica nesse novo cenário, beneficiando-se como fornecedor neutro e confiável. As oportunidades passam pela segurança alimentar, pela transição energética e pelo crescimento da demanda asiática, em especial a importação de proteína por China e Índia.

Semente como vetor de tecnologia e crescimento

Esse contexto de expansão da soja brasileira tem na semente certificada um de seus pilares. Nos últimos 20 anos, a demanda global de soja dobrou, e o Brasil foi responsável por 60% desse incremento, conforme dados apresentados por Fabiano Oliveira, Líder de Negócios de Soja da Bayer no Brasil, na palestra "Tecnologia e o Progresso da Soja no Brasil". Oliveira ressaltou que a biotecnologia representa menos de 4% do custo de produção por hectare e gera ganho substancial de produtividade.

O presidente da ABRASS, André Schwening, colocou a semente no centro dessa trajetória. Na última década, ela foi o principal veículo de transferência de tecnologia para a sojicultura brasileira, entregando ao produtor mais resistência, melhor adaptação às condições regionais e maior resultado por hectare.

"A semente é responsável pelo principal incremento de tecnologia para a sojicultura brasileira. O multiplicador não vende um insumo, vende anos de pesquisa e investimentos concentrados em um único grão", disse André Schwening, presidente da ABRASS.

Schwening frisou que o setor enfrenta margens apertadas, menor liquidez, insegurança jurídica e avanço da pirataria de sementes. Para ele, a sustentabilidade do segmento passa pelo fortalecimento das relações institucionais e pela capacidade de agir de forma coletiva. "Nossa maior força está na união. No final do dia, o que sustenta qualquer setor não é a margem, são as relações construídas. Tudo começa na semente. É na semente que o futuro se constrói", afirmou.

O ENSSOJA 2026 segue nesta quinta-feira, 7 de maio, com painéis sobre mercado, inovação e os desafios institucionais e regionais do setor sementeiro. A programação completa está disponível em www.abrass.org.br/enssoja2026.

Sobre o ENSSOJA e a ABRASS

O ENSSOJA é o Encontro Nacional dos Produtores de Sementes de Soja, evento bienal realizado pela Associação Brasileira dos Produtores de Semente de Soja (ABRASS). Em sua 4ª edição, o encontro já se consolidou como o principal fórum de debate do setor sementeiro da soja no Brasil.

A ABRASS representa em torno de 50% da comercialização nacional de sementes de soja, com associados em 10 estados brasileiros. Fundada em 2012, atua pela defesa de um ambiente regulatório equilibrado e pelo fortalecimento técnico e institucional do setor sementeiro.

Autor: Thalita Araújo / Conato assessoria de Comunicação ABRASS - Nátalie Luna